Quando viu os cacos de vidro no chão, ele fechou a cara na hora.Já tinha aquele ar frio e metido, mas agora… estava ainda pior.Mais sombrio. Mais sinistro.— Tá no hospital e ainda faz barraco, quebra as coisas? Quando é que vai tomar jeito, hein?Eu:— …???Barraco?Quem é esse doido?Ele abriu a boca pra continuar falando, mas segurou. No fim, só soltou:— A Carina quer sair do hospital por sua causa. Hoje, de um jeito ou de outro, vai pedir desculpa e segurar ela aqui.E do nada, ele avançou pra me puxar da cama.Meu instinto foi desviar.— Quem é você, mano?! Eu nem te conheço! Nem encoste em mim!Eu já estava me mexendo um pouco melhor, mas ainda estava toda ferrada. Nem ferrando que ia deixar alguém me pegar à força.Ele franziu a testa, impaciente.— Valentina, que porra é essa agora?!— Porra o quê, mano?! Eu nem sei quem é você! Cai fora agora, senão…Antes que eu terminasse, ele agarrou meus ombros com força.— Valentina, se continuar com essa frescura, eu
Descobrir que eu tinha um marido do nada?Meu cérebro fritou. Dormir? Impossível.Depois de rolar na cama por horas, peguei o celular e liguei pra minha melhor amiga, Noémia.Eu tinha evitado falar com ela esse tempo todo, porque, conhecendo ela, ia fazer um escândalo e me dar um esporro daqueles. Mas, no fundo, fiquei aliviada dela também não ter me procurado. Se tivesse, certeza que já teria descoberto tudo.Mas assim que ela atendeu, eu não aguentei e soltei, emburrada:— Ô sua desgraçada, se eu não te ligo, ia mesmo ficar esse tempão todo sem falar comigo?!Dois meses, cara. DOIS MESES sem nem um áudio, sem um “e aí, sumida?”, sem um emoji safado!Que amiga de merda.Achei que ela fosse inventar uma desculpa qualquer, tipo que estava no meio do mato, fazendo pesquisa, sem sinal, sem internet, sem Wi-Fi…Mas não.Do outro lado da linha, só silêncio.Um silêncio estranho.Um silêncio pesado.Meu peito apertou.E então, finalmente, ela falou. A voz seca, cortante:— Val
Nesse mês e pouco de fisioterapia, eu não fiquei à toa.Mandei investigar tudo.Sobre mim. Sobre ele. Sobre ela.E, olha… o que descobri foi de dar vontade de cavar um buraco e nunca mais sair.Eu e o Enrico não casamos por interesse.Foi por amor. Pelo menos da minha parte.Eu jurava que tinha casado com o homem da minha vida.Por esse cara, joguei minha vida fora.Investi dinheiro. Tempo. Energia.Ajudei no trampo. Segurei as pontas. Fiz de tudo por ele.Até tranquei a faculdade pra virar dona de casa e cuidar dele.E o que ganhei?Um belo par de chifres e um casamento que só existia no papel.Porque o amor da vida dele nunca fui eu.Foi sempre a Carina.Quando ele me viu na festa, fechou a cara na hora.— Valentina, que porra é essa agora? Três meses pra pensar e ainda não caiu na real?Eu ri.De mim mesma.Eu quase morri. Dei tudo o que tinha.E ele me pergunta se ainda não caí na real?— Caí sim.— Por isso vim aqui te dar os parabéns.O sorrisinho dele sumi
Na hora, geral começou a me xingar de fria, cruel, sem coração.No meio do falatório, bati os olhos na Carina, que me encarava com aquele olhar vitorioso.O mesmo roteiro de sempre.Desde que ela apareceu na minha vida, eu sempre perdia esse jogo.E o pior?Ela não tinha medo de se machucar se isso garantisse que eu fosse a vilã da história.Ela sorriu. Só entendi aquele sorriso.E, sem hesitar, passou a lâmina no pescoço.Se Enrico não tivesse segurado a faca a tempo, ela teria se esfaqueado de verdade.Às vezes, eu admirava a dedicação dela no teatro.Mas a lâmina ainda pegou de raspão.Era só um cortezinho.Mas bastou isso pro cara pirar.O olhar dele ficou cheio de ódio.Como se eu tivesse acabado de arrancar o coração da preciosa Carina com as próprias mãos.Ele pegou ela no colo.E antes de sair correndo pro hospital, ainda me lançou um olhar de puro desprezo.O mesmo cara que me deixou jogada numa cama de hospital por três meses, sem nem perguntar se eu estava v
Minha mãe, que já estava com a língua afiada pra continuar me xingando, engasgou na hora.Ficou ali, piscando, sem acreditar no que tinha acabado de ouvir.Meu pai, que já estava pronto pra soltar um sermão, travou junto.Antes, eles podiam me esculachar, pisar em mim, fazer o inferno… que eu nunca ia dizer que queria me divorciar.Mas antes que eles saíssem do choque, já soltei:— Tô toda fodida, então não vou sair daqui. — Se quiserem falar de divórcio, mandem o advogado. — Não preciso ver a cara de ninguém.Puxei o cobertor e virei pro lado.O tecido encharcado grudava na minha pele, me sufocando.Mas era melhor do que ver a cara de felicidade deles.Mesmo sem acreditar que eu estava falando sério, meus pais não eram burros.Sabiam que eu não estava de frescura.Por isso, mudaram o tom rapidinho.— Finalmente, minha filha! Até que enfim caiu na real! — Minha mãe agora falava com um sorrisão falso.— Tá cansada? Descansa direitinho! A mamãe manda a Francisca vir cuidar de
Eu tomei um puta susto e, no reflexo, dei uns passos pra trás.Pensei que ele estava fingindo estar bêbado pra aprontar alguma, mas, na real, a parada era ainda pior.— Amor… cheguei em casa… — Ele cambaleou e veio direto na minha direção.O cara era um armário. Se caísse em cima de mim, eu virava purê.Na mesma hora, desviei.Resultado?Tombo feio.O infeliz foi de cara no chão.A porrada foi tão forte que o chão tremeu.— Amor… — Ele levantou a cabeça, com uma cara de cachorro chutado.Sabe aquele bicho que corre todo feliz pro dono e leva um bico no meio da fuça?Pois é.Dava até dó.E talvez tenha sido por isso que um dia eu tenha me apaixonado por esse homem.Porque ele tinha essa cara de “me protege”, que me fazia querer perdoar tudo.Era o mesmo cara que uma vez soltou fogos na cidade inteira porque eu disse que gostava.Que ficou horas na fila só pra comprar um bonequinho pra mim.Que entrou num incêndio sem pensar duas vezes, só pra me salvar.Um amor desses é
— Valentina, já falei mil vezes! Eu e a Carina não temos nada! Você tá viajando! Para de usar esse papo de divórcio pra me pressionar! Pode insistir o quanto quiser, mas eu não vou mandar ela pra fora do país!Eu realmente achei que, dessa vez, ele tinha entendido que eu queria o divórcio.Mas, no final das contas, ele voltou com o mesmo papinho de sempre.Na cabeça dele, eu estava só surtando. Fazendo drama.A sensação de falar com uma parede estava me tirando do sério.Respirei fundo, tentando não mandar ele pra merda de vez, e encarei bem os olhos dele.— Enrico, presta atenção. Eu não tô fazendo cena. Não tô jogando o divórcio na sua cara pra conseguir alguma coisa. E, pelo amor de Deus, eu não tô nem aí pra onde você quer mandar essa mulher! — Eu só quero que vocês fiquem juntos e vivam felizes, bem longe de mim. — Aliás, se eu pudesse arrancar meu coração e enfiar na sua cara pra ver se você entende, eu faria!As mãos dele se fecharam com força.Os músculos do braço ficar
— Ah, não é nada, só um cortinho. — Enrico puxou a mão de volta, se afastando discretamente da Carina.Os olhos dela ficaram sombrios por um instante, mas foi tão rápido que quase passou despercebido. No segundo seguinte, lá estava ela de novo, com aquele sorrisinho doce e o olhar preocupado.— Enrico, pelo amor de Deus, vai cuidar dessa mão! Tá toda ferrada!— Não precisa. Primeiro eu te levo pra falar com o professor Rodrigo.Do outro lado do quarto, os pais da Valentina suspiraram pesadamente.Era isso.Se não fosse aquela confusão toda, se ele tivesse se divorciado antes, ele e a Carina já podiam estar juntos, felizes, sem precisar se esconder.Mas não.Tudo culpa da Valentina.E quanto mais pensavam nisso, mais ranço sentiam dela.A mãe da Valentina, de saco cheio, pegou o celular e ligou sem rodeios:— Joana, você sabia que o Enrico ainda não superou esse trauma, né? Por isso aceitou esse divórcio assim, tão fácil!Eu pisquei, confusa.— …???— Você é suja demais! E
A expressão do Enrico, que antes trazia um traço de culpa, fechou na hora.— Valentina, para de fingir que não sabe.Eu… ???Saber o quê?!Se eu soubesse, por que diabos eu ia perguntar?!Será que esse cara não percebe o quanto eu quero ele longe?!Que, se eu puder, nem uma palavra a mais eu quero trocar com ele?!Segurei a vontade absurda de esganar ele na hora e fui direto ao ponto:— Olha, sei que não acredita, mas realmente esqueci algumas coisas depois do acidente.Ele riu.Riu na minha cara.— Ah, pronto. Agora tá com amnésia? — Que engraçado… Esqueceu só essa parte específica, né?Fechei os olhos, respirando fundo.Eu podia tentar explicar. Podia falar que só descobri toda essa história porque li meu próprio diário.Mas olhando pra cara dele…Pra quê?Ele não ia acreditar.Nunca acreditou em mim.Então, quer saber? Foda-se.— Tá bom. Digamos que eu aceite essa ideia absurda de que vocês dois não têm nada.Levantei o queixo, encarei ele sem piscar.— E daí?!
— Se o Enrico quiser me achar cruel, beleza. Mas se quiser se machucar, que faça isso sozinha. Não toca um dedo em mim.Minha voz saiu fria, cortante.— Se fizer isso de novo, se ousar me empurrar na água outra vez, eu jogo esse vídeo no ventilador. E aí, minha querida, nunca mais levanta.Eu queria que ela acelerasse esse divórcio. Mas de jeito nenhum eu ia aceitar ser um dano colateral no processo.Meu corpo está frágil demais agora. Não importava se era por esse casamento ou por qualquer outra coisa, não podia mais sofrer nenhum dano.Antes que a Carina, com aquela cara de quem estava mascando um limão, abrisse a boca, eu virei as costas e saí.Cheguei em casa, tomei um banho e, quando ia me jogar na cama…Dou de cara com o Enrico na minha sala.Minha testa franziu na hora.— Que diabos tá fazendo aqui?Eu tinha mudado a senha de novo. Como caralhos ele entrou?!Hackear leva tempo. E dessa vez, minha senha não tinha nada a ver com as antigas. Não tinha como ele adivinhar.
Carolina estava praticamente cuspindo fogo enquanto berrava:— Valentina, sua desgraçada! Você bateu a cabeça quando caiu, né?! — Ou será que o tombo foi tão forte que deixou seu coração preto de veneno?!Ela me apontava o dedo, tremendo de raiva.— Sabe muito bem que meu primo NUNCA vai ficar com a Carina! E ainda tem a cara de pau de sugerir isso?! — Como alguém pode ser tão maldosa quanto você?! — Como é que o destino pode ser tão injusto?! Aquele penhasco era tão alto, e mesmo assim, você não morreu?!Eu ……???Estava sendo boazinha! Estava dando minha bênção pros dois ficarem juntos! Olha só que generosa!E por que diabos o Enrico não pode ficar com a Carina? Não estavam quase se beijando naquela noite na suíte? A Carina não vive dizendo que ele é louco por ela? Se ele ama tanto assim, qual a desculpa pra ainda não estarem juntos? E se não rola entre eles, por que essa cobra insiste tanto em se enfiar no meu caminho com ele? E o MAIS IMPORTANTE DE TUDO…Se o Enrico
Enrico ainda parecia querer falar alguma coisa, mas, no último segundo, desistiu.A expressão dele ficou rígida, os lábios se abriram um pouco… mas logo se fecharam de novo.No fim, ele só me lançou aquele olhar.Aquele olhar de quem acha que sou uma criança birrenta que não sabe o que tá fazendo.Mas, ao mesmo tempo… um olhar cansado, resignado, como se pensasse: ‘Tudo bem, deixa ela se divertir com isso’.E saiu.Que nojo.Assim que a porta se fechou, Carina estendeu a mão.— Me deixa ver.Ah, então ela queria confirmar se eu tinha mesmo filmado?Pois bem.Abri o vídeo e mostrei pra ela, sem hesitação.Desde o momento em que ela chegou perto de mim na festa, até o segundo exato em que me empurrou na piscina, tudo estava gravado.Cada palavra. Cada sorriso falso. Cada movimento calculado.O rosto dela ficou pálido na hora.Os olhos se arregalaram, cheios de choque e ódio.Porque agora ela sabia.Se esse vídeo fosse divulgado… Meu pai e minha mãe veriam. O Enrico veria
O clima no quarto continuava carregado, cada um esperando o próximo movimento. Mas então, a porta se abriu de repente, e Carolina entrou como um furacão.Carina levantou os olhos para ela.Só um segundo.Mas foi o suficiente.Carolina entendeu tudo na hora.— Carina, fica tranquila! Já chamei a polícia! — anunciou, com um sorrisinho vitorioso. — Logo mais, essa desgraçada vai estar atrás das grades!O ambiente gelou.O rosto do Enrico ficou sério, e uma ruga de irritação surgiu em sua testa.— Carolina, que merda é essa?! Quem te mandou chamar a polícia?! — A voz dele saiu cortante, carregada de irritação.Ele fez uma pausa e seu olhar ficou ainda mais frio.— E outra coisa… se eu ouvir você xingando sua cunhada de novo, vai ter problema.Segurei o riso.Que cara mais sem noção.Me trata como se eu não valesse nada, mas quando outra pessoa me desrespeita, resolve bancar o marido protetor?Decide, né, bonitão?Mas Carolina não estava nem aí.— Agora você quer defender es
Agora, meu pai nem hesitou. Já foi metendo o pé na porta, ansioso para arrancar as ações para a Carina, como se aqueles 10% da JQ Pharma, que valiam mais de cem milhões, fossem apenas dez reais, fáceis de pegar.Mas em que momento exato eles acharam que podiam simplesmente enfiar a mão no meu dinheiro assim, do nada?Carina tentou manter a pose, mas vi seus dedos se apertarem com força no cobertor.Então era isso, né?Ontem, achei que ela tinha me empurrado na água só no calor do momento, por impulso. Mas agora… vejo que fui ingênua demais.Ela já tinha tudo planejado.Se eu não tivesse ido até a piscina, ela ia dar um jeito de me levar até lá.Se não fosse a piscina, seria qualquer outra coisa.O importante era que, no final, tinha que parecer que eu queria matar ela.Assim, ela matava quatro coelhos com uma cajadada só: 1. Me forçava a me humilhar, pedindo desculpas. 2. Facilitava ainda mais a obtenção das ações. 3. Me fazia desistir completamente do Enrico. 4. Fazia o E
Fiz minha melhor cara de inocente.— Ué, só tô elogiando a aparência da minha irmãzinha.Cruzei os braços e inclinei levemente a cabeça.— Agora nem elogiar pode mais?Meus pais já estavam vermelhos de raiva.— Joana, desde quando ficou assim?!Minha mãe me olhava como se eu fosse a pior pessoa do mundo.— Sua irmã sempre foi tão boa com você! Até agora, ela estava pedindo pra gente não chamar a polícia! Disse que foi só um momento de impulso seu e pediu pra gente te perdoar!Ela bufou, a voz tremendo de indignação.— E o que faz? Em vez de reconhecer, ainda tem a audácia de zombar dela?! — Não tem um pingo de compaixão?! Por que sempre persegue a Carina?!Minha mãe bateu a colher na mesa com força, os olhos faiscando, como se estivesse prestes a me bater.— Primeiro, causou o sequestro da sua irmã e nem se deu ao trabalho de pedir desculpa! Depois, a fez querer morrer e a deixou no hospital! — Na festa da sua avó, humilhou sua irmã na frente de todo mundo! E como se não bas
Tentei puxar meu braço, mas ele segurava com tanta força que me machucava. Eu não me atrevia a forçar, então apenas o encarei, minha voz saindo fria e cortante:— Solta. Não vou pedir desculpa.Enrico franziu a testa, impaciente.— Não vai pedir desculpa? Então quer ir pra cadeia?Ele sempre achou que eu tinha caído na piscina por acidente. Só quando Carolina começou a berrar sobre chamar a polícia que ele finalmente percebeu que estavam me acusando de empurrar Carina.— Tem ideia do que fez? Quase matou a Carina!Respirou fundo, como se estivesse tentando manter a calma, e continuou:— Já disse, na frente de todo mundo, que minha esposa sempre será você. Que entre mim e a Carina nunca teve nada. Então por que insiste nisso? Por que teve que jogá-la na água?Os olhos dele se estreitaram, como se realmente não entendesse.— Valentina, será que dá pra ser um pouco menos cruel? Dá pra ter um mínimo de compaixão pela Carina?E pronto.Lá estava.Mais uma vez, exatamente como eu
— Valentina, sua vadia! Como você ousa aparecer aqui?! — A mulher berrou, os olhos cheios de ódio, e veio para cima de mim com fúria.Tentei dar um passo para trás, mas antes que conseguisse me esquivar, um corpo alto surgiu na minha frente, bloqueando o ataque e levando a porrada no meu lugar.O impacto fez Renato franzir a testa. Meu olhar se tornou gélido na mesma hora.A mulher, ao perceber que não tinha me acertado, ficou ainda mais furiosa. Ela apertou os punhos, tremendo de raiva, e apontou um dedo acusador para Renato.— Quem é você?! Por que tá defendendo essa vagabunda?! O quê… é o amante dela?!E, como se tivesse acabado de desvendar o maior escândalo do século, continuou, sarcástica:— Agora tudo faz sentido! É por isso que tá se achando, né, Valentina? Encontrou um otário pra bancar você e já se sente a dona do mundo! — Vou contar para meu primo! Quero ver se ele ainda vai deixar você sair desse casamento sem um centavo sequer!Ah… a gloriosa Carolina, filha da tia