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Capítulo 0007

Author: Lívia Andrade
Beatriz ergueu o rosto e encarou Gabriel com firmeza, os punhos cerrados.

Tudo isso... Só para namoradinha dele poder comer uma refeição quente. E a solução era simples: mandar a ela, ferida, para cozinha.

Ela tinha subestimado Gabriel. Não havia nele um pingo de humanidade.

— Vocês não sabem pedir delivery? — Disse, com a voz carregada de ironia. — Qualquer restaurante entrega. E você... Não é exatamente alguém que precise economizar, né?

Gabriel apertou os lábios, desviando o olhar do pé machucado dela. Levou a mão ao bolso, pegando o celular, mas, antes que dissesse algo, Vitória se adiantou, falando com uma voz doce:

— A ideia era vir visitar a Bia... Fazer uma comidinha pra ela. Pedir comida pronta... Ia parecer tão impessoal.

— Então faz você. — Rebateu Beatriz na hora, fria como gelo.

— É que... Eu não estou acostumada com a cozinha daqui. Quase me machuquei quando derrubei o prato. O Gabi ficou tão preocupado comigo... — Disse Vitória, piscando os olhos, num olhar de falsa inocência.

— Olha, Bia... Que tal eu te ajudar? — Continuou ela, forçando um sorriso doce. — Eu fico de assistente, te passo os pratos... Vai ser como se eu também tivesse cozinhado, tá bom?

Para Beatriz, aquele sorriso radiante era puro teatro.

Vitória não ia desistir enquanto não a obrigasse a entrar na cozinha, mesmo machucada. Isso já estava mais do que claro.

Beatriz respirou fundo, sentindo o cansaço pesar.

— Tudo bem. Eu faço para vocês. — Respondeu, sem emoção alguma.

Quanto mais rápido eles comessem, mais rápido iriam embora. Melhor assim. Não valia a pena desperdiçar energia lidando com aquele casal ridículo.

— Ah, não! Deixa, eu ajudo! Vamos cozinhar juntas! — Insistiu Vitória, com aquela voz doce que irritava Beatriz até a alma.

E, sem perder tempo, virou-se para Gabriel e disse, animada como uma dona de casa mandona:

— Gabi, vai colocando a mesa! Serve o suco também!

Ela falava como se fosse a dona do apartamento. E Beatriz... Nada mais que a cozinheira de plantão.

Antes, isso teria doído. Teria sentido ciúmes, amargura, talvez até raiva. Mas agora... Não mais.

Desde o momento em que Vitória voltou ao país e Gabriel correu para os braços dela, o coração de Beatriz tinha morrido por completo.

Atrás dela, os dois trocavam palavras melosas, um colado no outro. Beatriz não se virou nem uma vez. Gabriel, obediente, decorava a mesa como um namorado perfeito, enquanto Vitória se agarrava ao braço dele, rindo e esbanjando charme.

Ela fazia questão de encenar tudo ali, na frente de Beatriz, deixando claro para qualquer um que quisesse ver:

O coração de Gabriel já tinha dona, e essa dona era ela.

Ao lado, Gabriel abaixou o olhar e, discretamente, puxou o braço de volta, se livrando do toque dela.

— Me desculpa, Gabi... — Vitória mordeu o lábio, com um olhar arrependido. — É que... Sempre que fico perto de você, lembro dos nossos tempos juntos. Não consigo evitar... Acabo querendo segurar seu braço...

— Não tem problema. — Respondeu ele.

Gabriel olhou em direção à cozinha. Beatriz continuava lá, imóvel, de costas para eles, como se não tivesse ouvido absolutamente nada da conversa. Nem um olhar, nem um suspiro.

Vitória foi até a cozinha. Enquanto lavava os legumes, começou a tagarelar, contando histórias do passado, dando conselhos sobre as preferências alimentares de Gabriel, como se estivesse passando um manual de como agradá-lo.

Para Gabriel, aquilo soava forçado... Parecia que ela queria ensinar Beatriz a agradar um homem que ela já servia há dois anos. Um incômodo estranho subiu em seu peito.

— Não precisa me dizer. — Beatriz não conseguiu mais se segurar e respondeu, com a voz afiada como uma lâmina. — Eu cozinhei para ele por dois anos.

Precisava mesmo que Vitória viesse explicar o que ele gostava ou não?

Por trás da falsa doçura e dos conselhos bem-intencionados, estava o veneno: Vitória queria exibir, bem na frente dela, os três anos de namoro que teve com Gabriel.

Ao ouvir isso, Vitória fez uma expressão magoada, virou-se para Gabriel com um olhar ferido e murmurou, amarga:

— Desculpa... Eu esqueci... O Gabi já deve estar acostumado com a comida dela...

— De jeito nenhum! — Gabriel interrompeu na hora, a voz elevada, ansioso para se justificar. — No máximo, a comida dela não mata ninguém. Mas não tem gosto de nada! Parece papelão!

Beatriz apertou o cabo da espátula com tanta força que os dedos ficaram brancos.

Papelão.

Dois anos cozinhando para ele, cuidando de cada detalhe... E, no fim, tudo que recebeu foram essas palavras.

Ela não quis discutir. Não queria rebater. No fundo, entendeu: aqueles dois anos tinham sido jogados na lata do lixo.

Vitória, ao ouvir Gabriel, passou da tristeza à alegria num piscar de olhos. Voltou a falar animadamente, enchendo o ar de palavras doces e desnecessárias.

— Fala menos, Vitória. — Gabriel cortou, a voz fria. — Ela não merece saber disso.

— Ah, eu só queria que a Bia cuidasse bem de você depois... — Respondeu Vitória, fazendo um biquinho e piscando, brincalhona.

Então, suspirou fundo e mudou o tom. Seu rosto assumiu uma expressão melancólica, quase teatral.

— Eu sei que... Eu e você não temos mais chance. Mas... Não importa quem esteja ao seu lado, Gabi... Eu só quero te ver feliz. — Murmurou, carregando na voz a tristeza de quem parecia protagonista de uma novela.

Gabriel olhou para ela, sentindo um aperto no peito que não sabia explicar.

A mulher que um dia ele mais amou... Agora estava ali, na frente dele.

Mas ele já tinha outra vida. Um casamento, uma família...

— Vamos nos divorciar. — De repente, Beatriz virou o rosto e disse, a voz fria, sem emoção.

Gabriel ficou paralisado, encarando-a sem conseguir reagir.

— Se divorciando, a Vitória vai ter uma chance. E você... Você pode viver feliz com ela até o fim da vida. — Continuou Beatriz, olhando diretamente nos olhos dele, calma e firme.

A serenidade no tom de voz dela, aquele olhar distante e indiferente... Tudo aquilo parecia estranho demais para Gabriel. Era como se, naquele instante, ele fosse um completo estranho para ela.

Antes, os olhos de Beatriz só tinham espaço pra ele. Sempre cheios de amor, cheios de esperança. Mesmo quando ele a criticava, desprezava, ela só se esforçava mais na vez seguinte.

Mas agora...

— Divórcio? — Ele explodiu, a voz alta, carregada de raiva e de algo que ele próprio não percebeu: medo. — Não foi você que armou tudo para se casar comigo? Agora quer sair assim, como se eu fosse um brinquedo que você usa e joga fora?

Gabriel gritou de repente, sem nem perceber a raiva fervendo por dentro, junto com um certo desespero que escapava sem controle.

Beatriz ficou olhando aquele homem furioso, quase fora de si, e repetiu, com a mesma calma fria:

— Você não ama a Vitória? Se divorciar de mim... Você pode se casar com ela.

Na verdade, ela tinha planejado falar isso só nos últimos dias do contrato. Mas a conversa surgiu naturalmente.

E, no fundo, antecipar o assunto só traria vantagens, menos tempo perdido, mais objetividade.

O que ela não esperava era a reação de Gabriel: não só recusando, mas furioso, como se ela tivesse acabado de dizer a maior das ofensas.

— Nem pense nisso! — Gabriel rosnou, os olhos escurecidos, frios e cruéis. — Eu vou te mostrar... Nem que você morra, você não vai ser livre!

Beatriz mordeu os lábios, sentindo o gosto amargo da tristeza.

Então... Era por isso que ele não aceitava o divórcio.

Não porque ainda existisse algum sentimento.

Mas porque queria mantê-la presa ali, ao lado dele, para sempre. Para vê-la como uma escrava, uma sombra... Enquanto ele saía, traía e vivia seu romance com Vitória bem diante dos olhos dela.

Beatriz virou-se de costas, sentindo os olhos arderem, um nó apertando forte na garganta.

No fundo, ela se perguntava: “quanto ódio Gabriel realmente sentia por ela?”

Dois anos... Mesmo que ela não tivesse méritos, não merecia, ao menos, um pouco de reconhecimento pelo esforço?

Mas não.

Ele a odiava. Odiava até os ossos.

Ao lado, Vitória tinha assistido a tudo, do começo ao fim.

Jamais imaginou que Gabriel recusaria o divórcio daquele jeito. Que ficaria descontrolado, gritando, fora de si.

Ele dizia palavras duras, cruéis... Mas, no fundo, parecia não querer, de jeito nenhum, abrir mão de Beatriz.

Um medo gelado percorreu o corpo de Vitória. O corpo dela tremia, dos pés à cabeça.

E se... E se Gabriel estivesse começando a amar Beatriz?

Só de pensar nisso, um pânico sufocante tomou conta dela.

— Gabi... não fica bravo... — A voz saiu trêmula, embargada, quase um soluço. — A culpa é minha... Fui eu que falei demais, eu não queria separar vocês dois... Me desculpa...

Vitória olhou para ele, lágrimas enchendo os olhos, pedindo perdão... Enquanto, por dentro, o medo e a insegurança a devoravam.
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