Share

Capítulo 7

Author: Chuva Solitária
Logo pela manhã, Helena despertou com uma dor de cabeça latejante.

A empregada da casa, sempre atenciosa, trouxe um comprimido para ela.

Depois de tomar o remédio, Helena se sentiu muito melhor. Justo quando se preparava para tomar um banho, ouviu a empregada resmungar irritada:

— O Sr. Bruno foi seduzido por aquela mulher de fora. Ontem à noite, ele voltou para casa, viu a Sra. Lima nesse estado de embriaguez e, ainda assim, pegou o carro e foi embora.

Foi assim que Helena soube que Bruno havia voltado na noite anterior.

A empregada, se lembrando de outro assunto, acrescentou:

— Sra. Lima, o Sr. Bruno mandou lavar o paletó do Advogado Manuel e pediu que fosse entregue diretamente a ele. No fim das contas, ele ainda tem um pouco de consciência e sabe cuidar da senhora.

A empregada, sem conhecer os verdadeiros pensamentos de Bruno, acreditava que ele apenas queria demonstrar consideração por Helena.

Mas Helena sabia a verdade: Bruno tinha medo de que ela o traísse.

Se sentindo indisposta, decidiu descansar em casa por dois dias, aproveitando para visitar sua avó.

...

Na segunda-feira, uma grande reviravolta aconteceu no Grupo Glory.

Um dos principais projetos da empresa apresentou problemas, e todas as evidências apontavam para uma negligência de Helena. Após uma reunião dos acionistas, ficou decidido que todas as suas funções seriam suspensas, e naquele dia mesmo, ela teria que desocupar a sala da vice-presidência.

No 32º andar, dentro do espaçoso escritório da vice-presidente, Helena permanecia imóvel diante da janela panorâmica, observando em silêncio o esplendor da Cidade D.

Atrás dela, Ana entrou apressada e sussurrou, indignada:

— Presidente Helena, o Plano Mia foi entregue à Camila!

Ana estava à beira de um ataque de raiva, enquanto Helena, por outro lado, se mantinha serena.

Naquele momento, ela já não queria mais Bruno.

Fama e status também haviam perdido a importância. Ela pegaria apenas o que lhe era de direito e sairia de cena com dignidade, deixando para trás o mundo de Bruno. Se o que ele sentia por Camila era amor verdadeiro ou apenas uma forma de compensação, isso já não lhe dizia respeito.

Quando Helena estava prestes a responder, o celular sobre a mesa de trabalho tocou.

Ela caminhou até lá e atendeu. Era o pai de Bruno, que a convidava para uma conversa em seu escritório.

Helena aceitou.

À tarde, ela pegou um carro e foi até o local onde Tomás trabalhava.

Tomás não fazia parte do Grupo Glory. Ele possuía seu próprio império empresarial, uma fachada de sofisticação que, na realidade, servia para preparar o caminho para a carreira de seu filho.

Era o fim de outubro.

Uma rajada de vento outonal soprou, espalhando no ar o perfume das flores.

Assim que desceu do carro, a secretária particular de Tomás veio recebê-la. Era uma mulher de beleza impressionante. Com um sorriso educado nos lábios, conduziu Helena até a entrada de uma elegante cafeteria.

A secretária abriu a porta e anunciou com respeito:

— Sr. Tomás, a esposa do Bruno chegou.

Tomás estava saboreando seu café quando ouviu a notícia. Ele ergueu os olhos e lançou um olhar gentil na direção de Helena, dizendo com naturalidade:

— Helena, você veio. Entre e tome uma xícara de café comigo.

Helena, em respeito ao sogro, se curvou ligeiramente em reverência ao entrar na cafeteria.

Tomás, ao que parecia, já estava ciente das mudanças internas no Grupo Glory. Em silêncio, serviu uma xícara de café para Helena e conversou longamente sobre os assuntos da empresa. Ele sempre admirou muito Helena, pois com ela ao lado de Bruno, a posição de seu filho permanecia sólida.

No entanto, às vezes, a competência podia ser uma arma de dois gumes.

Uma fera, quando fortalecida, poderia se tornar uma ameaça.

Nesse ponto, Tomás e Bruno compartilhavam a mesma visão, embora Bruno fosse mais impetuoso em sua abordagem.

Tomás, por outro lado, era sempre afável e cordial.

— Helena, sempre admirei você. Você e o Bruno estão enfrentando algum problema? Se for por causa daquela garota, Camila, não precisa se preocupar. Ela não passa de uma jovem inexperiente.

Helena sorriu levemente.

— Não há problema algum.

Ela jamais cometeria a tolice de escancarar suas desavenças com Bruno. Na família Lima, ninguém era excessivamente compassivo.

Tomás ficou surpreso por um instante.

Sua admiração por Helena cresceu ainda mais. Aquela mulher era, de fato, incrivelmente equilibrada.

Após refletir por um momento, ele decidiu expressar sua preocupação.

— O Plano Mia envolve uma parceria com o David Cunha. O Eduardo tem um temperamento explosivo, e temo que, caso ele assuma, possa causar sérios problemas para o grupo.

Helena captou imediatamente a intenção nas palavras do sogro.

Com uma calma inabalável, respondeu:

— Não se preocupe. Oficialmente, o projeto está nas mãos da assistente Camila, mas, na realidade, é o Bruno quem está no comando. O Eduardo não terá espaço para causar confusão.

Tomás se viu momentaneamente desconcertado por ter sido desmascarado. Ainda assim, manteve a compostura e fez alguns comentários amenos para dissipar a tensão.

Quando Helena deixou o local, o céu já estava tingido pelo dourado do entardecer.

O sol poente se fragmentava em tons quentes no horizonte.

A secretária de Tomás, se inclinando ligeiramente, aguardava ao lado do carro para se despedir de Helena. Seu sorriso era impecável, quase artificial, como uma boneca perfeitamente manipulada.

De repente, Helena teve a sensação de que já havia visto aquela mulher antes...

...

Antes que a noite caísse por completo, Helena retornou ao escritório.

Ela começou a organizar suas coisas, delegando algumas tarefas a outras pessoas e descartando o que não tinha mais utilidade.

Ana, indignada, praguejava contra Bruno, prometendo que, quando voltassem ao topo, fariam questão de punir todos aqueles que agora as estavam menosprezando.

Helena apenas sorriu, sem responder.

De repente, se ouviu uma batida na porta.

Bruno estava impecavelmente vestido à porta, um homem tão bonito e charmoso que poderia facilmente rivalizar com um astro de cinema. Ele chamou Ana para fora, e, ao sair, ela resmungou um xingamento contra ele em voz baixa.

Assim que Ana partiu, Bruno entrou, seus olhos profundos pousaram sobre Helena.

O reencontro dos dois já não era mais o mesmo.

Por consideração ao passado, Bruno amenizou o tom de voz:

— A Camila nunca foi o nosso problema. Helena, se você quiser, convocarei uma assembleia de acionistas no próximo mês para que volte ao Grupo Glory.

Ao ouvir isso, Helena soltou uma risada baixa.

Que piada!

A ruptura entre eles, o colapso emocional que ela teve naquela noite, as horas da madrugada em que se afogou na bebida... Na visão do marido, tudo isso não passava de birra e impulsividade. Ele nem sequer percebia que, ao lhe oferecer essa "oportunidade", acreditava estar lhe concedendo uma dádiva, algo pelo qual ela deveria ser grata.

Que pena... Nada do que ele dizia importava mais para ela.

Como ele podia achar que ela ainda estaria disposta a servi-lo, a compartilhar uma vida ao lado dele? Só de lembrar do carinho e da proteção que ele destinava a Camila, Helena sentia que havia desperdiçado a própria juventude.

Ela se aproximou de Bruno e ergueu a mão para ajeitar a gola da camisa dele.

No passado, sempre era Helena quem o ajudava a se arrumar antes dos eventos. Esse gesto, ela já havia repetido incontáveis vezes.

Naturalmente, Bruno se inclinou ligeiramente para facilitar o movimento dela. Os dois estavam muito próximos, tão próximos que a respiração quente do homem roçou na pele de Helena...

Ao encarar de perto os traços delicados dela, Bruno não pôde evitar a lembrança daquela noite. A forma como Helena se entregou a ele na cama... Durante os quatro anos de casamento, eles já haviam feito amor inúmeras vezes, mas nunca daquela maneira. Aquela versão dela, ele jamais havia visto antes.

A garganta de Bruno se moveu em um engolir em seco, e seu pomo-de-Adão, proeminente, exalava uma sensualidade indescritível.

Helena terminou de ajeitar a roupa dele. Seus dedos deslizaram suavemente pelo tecido refinado da camisa, carregando um traço de nostalgia.

Seis anos de amor, quatro anos de casamento... Tudo chegava ao fim.

Essa era a última vez, Bruno!

Ela ergueu o rosto,encarando ele em silêncio antes de murmurar suavemente:

— Não precisa. Eu não quero voltar.

Bruno ficou atônito.

Helena já havia passado por ele, segurando uma pequena caixa enquanto caminhava para fora. Depois de quatro longos anos, percebeu que, do Grupo Glory, não havia muito que pudesse levar consigo.

Ao chegar à porta, ergueu levemente o rosto e, com a voz carregada de algo contido, disse:

— Bruno, eu estou indo embora.

O coração de Bruno se apertou. Algo nela havia mudado.

Mas... O que exatamente? Ele não sabia dizer.

Parado ali, dentro da sala de Helena, ele a viu se afastar, entrar no elevador, desaparecer pouco a pouco de sua vista.

Naquele momento, Bruno ainda não havia percebido...

Aquela tinha sido a despedida final.

Helena estava deixando o Grupo Glory. Deixando ele.

E nunca mais voltaria.

Related chapters

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 8

    Helena estava no estacionamento quando encontrou Manuel. Ele parecia um pouco surpreso também. Após pensar por um instante, caminhou até ela, os olhos profundos e insondáveis. — Você vai mesmo deixar o Grupo Glory? Helena respondeu com um aceno sutil. — Sim, estou me preparando para sair. Ela jogou no porta-malas do carro a mala que segurava. Depois de fechar a tampa, se virou para Manuel e disse com indiferença: — Obrigada pelo que fez naquela noite. Manuel a observou atentamente. A expressão serena, o olhar frio... Era a Helena que ele conhecia. Naquela noite, sua beleza frágil foi como um sonho passageiro. Os olhos de Manuel se obscureceram. Comedidamente, ele assentiu. — Não há de quê. Seu tom era distante, mas, quando o carro de Helena se afastou lentamente, ele permaneceu ali, imóvel, olhando por um longo tempo, com um semblante carregado de pensamentos. ...Às oito da noite, Helena chegou à Mansão Belezas. Assim que saiu do carro, uma brisa carregada

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 9

    Aquele pedaço de papel, cada palavra impressa nele Bruno leu e releu incontáveis vezes, até que seus olhos ficaram ardendo de cansaço. De repente, ele compreendeu a dor de Helena, as lágrimas de Helena. De repente, ele entendeu por que, naquela noite no estacionamento, Helena desmoronou e o questionou desesperadamente: "Bruno, você não pode me dar nem um minuto do seu tempo? Depois de quatro anos de casamento, eu não valho ao menos isso para você?" Sua Helena não podia mais ter filhos! Ele não amava Helena. Mas Helena era uma pessoa importante para ele. Ela esteve ao seu lado por quatro anos, acompanhando ele durante os momentos mais sombrios de sua vida, testemunhando sua ascensão ao topo do poder. Quando se casaram, prometeram ter dois filhos, depositando neles seus mais belos desejos. Um se chamaria Sofia Lima. O outro, Gonçalo Lima. Bruno se sentou lentamente na beira da cama. Seu rosto, sempre tão marcante e imponente, naquele instante carregava uma rara expressão

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 10

    O desejo de Bruno foi despertado por ela. Helena estava um pouco irritada. Não queria vê-lo; os advogados cuidariam do divórcio. Ela tentou fechar a porta, mas Bruno foi mais rápido. Com um simples movimento do pé, impediu que ela se fechasse e, sem esforço algum, entrou no apartamento... Assim que a porta se fechou, Helena foi envolvida pelos braços do homem. Bruno a segurou pela cintura fina, puxando ela com força contra si. Ele a beijava com uma intensidade quase insana, e Helena não conseguia se desvencilhar. Entre tropeços e suspiros entrecortados, os dois acabaram diante do sofá. No macio estofado, Bruno claramente tinha vantagem. Ele nunca havia sido assim! A luz intensa iluminava a sala, e a voz suave e ofegante de Helena parecia incapaz de trazê-lo de volta à razão. Só quando Bruno avistou uma pequena pinta avermelhada é que seu ímpeto cego arrefeceu um pouco. Com a respiração pesada, ele aproximou os lábios quentes da orelha de Helena e perguntou, com a voz ro

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 11

    Helena sentia que havia algo errado com ele. Com certeza, tinha levado um fora. Mas a vida pessoal do ex-marido não era da sua conta. Uma mulher sensata sabia que esse era um princípio básico. Helena não podia expulsá-lo, mas também não tinha o menor interesse em ficar observando ele fumar. Então, prendeu os cabelos úmidos para trás com um simples grampo, calçou os chinelos e seguiu para a cozinha, disposta a preparar algo simples para si mesma. Na verdade, Helena cozinhava bem, mas, depois de se casar com Bruno, raramente tinha a oportunidade de pôr a mão na massa. Agora que morava sozinha, fazia suas próprias refeições no dia a dia. Em pouco tempo, o aroma dos pratos começou a se espalhar pela cozinha, impregnando o ambiente com um leve toque de aconchego. Bruno estava sentado no sofá e, por acaso, avistou o perfil dela. Ainda vestia aquela camisa preta que revelava as pernas, exalando sensualidade, mas, ao vê-la inclinada sobre o fogão, preparando a comida, havia nela

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 12

    No amanhecer, o primeiro caminhão-pipa da cidade passou sob o prédio do apartamento. A música que tocava no alto-falante era uma das favoritas de Helena, chamada "O adeus é um estranho". Um raio tímido de luz da manhã atravessou o quarto, fazendo a cortina ondular suavemente. Bruno já não estava ao seu lado na cama. Na noite anterior, ele não a forçou a nada, apenas despertou várias vezes e a beijou outras incontáveis vezes... Parecia estar se contendo havia muito tempo. E, entre aqueles beijos sonolentos e entrecortados, Helena teve a impressão de ouvir Bruno murmurar: — Helena, vamos recomeçar. Recomeçar... Essas palavras tinham um poder quase irresistível para Helena, mas os sofrimentos do passado a deixavam receosa. Aquele dia no Clube Furtivo, a expressão furiosa de Bruno também a assustou. Ela temia que, no fim, tudo não passasse de um sonho efêmero. Nos dias que se seguiram, Bruno veio vê-la por três ou quatro noites seguidas. Nada de extraordinário aconteceu.

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 13

    Ela não pôde deixar de pensar: — Quanta devoção é necessária para ignorar os rumores do mundo? Helena não quis olhar por mais tempo. Se virou para ir embora, mas, às suas costas, ouviu a voz delicada de Camila chamando: — Sra. Lima. Helena se virou e os encarou. Camila envolvia o pescoço de Bruno com os braços e, com um tom ainda mais manhoso, chamou novamente: — Sra. Lima, não há nada entre mim e o Bruno! Eu não estava me sentindo bem, por isso ele me carregou. Antes que Helena pudesse responder, a Sra. Fernandes, com uma cortesia fria e distante, interveio: — Você é a esposa do Bruno, não é? Ele e a Camila se conhecem desde a infância, são grandes amigos. É natural que ele cuide dela de vez em quando. Você não se importa com isso, não é? Helena olhou para Bruno. Seu marido ainda segurava Camila nos braços, sem soltá-la, apenas franzindo levemente as sobrancelhas. Ela não tinha disposição para se importar. O que lhe causava verdadeiro desgosto era a família Fernand

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 14

    A noite já estava evidente quando Helena dirigiu de volta para casa. Assim que estacionou o carro e soltou o cinto de segurança para sair, seu olhar congelou por um instante. O carro de Bruno estava parado sob uma árvore do outro lado da rua. Ele vestia preto da cabeça aos pés e se apoiava contra a lataria, a cabeça levemente inclinada para trás enquanto fumava. O pomo-de-Adão, bem marcado, se movia de forma absurdamente sedutora. A fumaça azulada subia, envolvendo seu rosto esculpido antes de ser suavemente dissipada pelo vento noturno. A escuridão era densa, e ele parecia fazer parte dela. Ao vê-la, Bruno a encarou com um olhar profundo. Depois de alguns segundos, jogou o cigarro no chão, apagando ele com o sapato, e começou a caminhar em sua direção. Helena não queria vê-lo. Assim que saiu do carro, se apressou em direção ao elevador, ouvindo os passos dele atrás de si, calmos, sem pressa. No final, ele a encurralou na porta do apartamento. — Helena, podemos conversa

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 15

    Agora, Helena não gostava mais dele. Em que momento, afinal, ele havia perdido o amor de Helena? ... Três dias depois, na sala da presidência do Grupo Glory. Bruno estava claramente de mau humor. Sobre sua mesa repousava uma intimação judicial. A autora da ação era sua esposa, Helena, que havia solicitado o divórcio e a partilha dos bens conjugais. Recostado no sofá, com as longas pernas cruzadas, Bruno pegou a intimação com uma das mãos. Ele perguntou em voz baixa à secretária Juliana, que estava ao seu lado: — Ela já contratou um advogado? Juliana respondeu com sinceridade: — Sim, ela contratou o Roberto Leite, um nome renomado no meio jurídico. Ele é extremamente competente... Se for ele a assumir o caso, temo que nem mesmo o advogado Manuel consiga vencer essa disputa. Bruno lançou um olhar para ela e, com um tom indiferente, disse: — Quem disse que eu vou disputar esse caso com a Helena? Esse é um desejo unilateral dela. Eu, por minha vez, não tenho intençã

Latest chapter

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 30

    Depois que Helena se foi, Bruno foi a um lugar.O terraço do Edifício Coolidge.O vento da noite soprava forte, levantando os casacos negros de dois homens, como se fossem águias negras prestes a se lançar na caça. O clima entre eles estava tenso, sem que fosse possível dizer quem ganharia a disputa.Bruno, de costas para o vento, acendeu um cigarro e deu uma tragada profunda. Seu rosto magro, ainda mais marcado pela força do gesto, fazia seus traços parecerem mais intensos e profundos, aumentando a sua imponência.Depois de fumar metade do cigarro, Bruno olhou para Manuel e, com a voz gélida, disse:— Cancelaremos a parceria. E, sobre o processo de divórcio com a Helena, não será mais necessário seguir com ele por enquanto. Se algum dia eu precisar, outro advogado irá cuidar disso...Manuel, surpreso, perguntou:— Por quê?Bruno atirou o resto do cigarro no chão e o apagou com a sola do sapato. Seu tom de voz ficou ainda mais frio e cortante.— Manuel, você me pergunta o por quê?No i

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 29

    Helena, claro, sabia muito bem o que estava acontecendo. Por isso, ela não rejeitou diretamente a proposta. Quem não gostaria de dinheiro, não é? Mas ela também não era boba. Bruno, naturalmente, não daria aquilo de graça. O dinheiro dele não era fácil de se conseguir. Ela sorriu levemente e disse:— O que eu preciso fazer em troca?Bruno a olhou com franqueza, sem rodeios:— Colaborar com o Plano Mia, colaborar comigo na cama.— Bruno Lima!— Eu tenho necessidades fisiológicas como homem.Helena não aceitou imediatamente, mas respondeu com calma:— Vou pensar a respeito.Bruno então tirou um contrato do bolso e o entregou para ela.— Aqui está o contrato. Você pode levar para um advogado analisar. Se tiver outras condições, podemos negociar. Helena, não há sentimentos de amor entre nós, mas ao menos fomos casados. Pondere bem.Helena concordou em pensar, mas ainda assim decidiu ir embora. Disse que não ficaria para passar a noite. Bruno não a impediu.Naquela noite, ele ainda tinha

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 28

    Bruno entrou no quarto de hotel, com Helena ao seu lado. Era a primeira vez que ficavam em um hotel juntos. No ambiente sem luz, tudo ao redor parecia mais intenso. Enquanto Helena ainda tentava se recompor, foi pressionada contra a porta dura e forçada a beijar Bruno. Ele exalava um aroma suave de perfume, misturado com o cheiro fresco de tabaco, e ambos se misturaram no beijo urgente, invadindo seu corpo de forma implacável. Ela sentiu suas pernas tremendo, incapaz de se manter em pé... Os dois se moveram desajeitados até o sofá, e Bruno tirou o casaco, seguido pelas meias de Helena. Suas pernas finas, ainda cobertas pela peça, roçaram contra o tecido preto das calças dele, tremendo de uma maneira desconfortável. O homem acariciou o rosto dela e, com um tom imperativo, perguntou: — Diga que não gosta do Manuel. Helena jamais diria isso. Ela não tinha nenhum tipo de interesse em Manuel, mas também não queria ser forçada a afirmar lealdade diante de Bruno. Ele, por sua

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 27

    Naquele dia, foi a primeira vez em que Manuel sentiu o desejo de abraçar uma mulher. Não por desejo carnal. Ele só queria segurá-la nos braços, enxugar suas lágrimas, beijar seus lábios trêmulos e vermelhos. No silêncio que pairava, Manuel perguntou novamente: — Por que você quer se divorciar? À porta, Bruno se virou com Helena, seu olhar gélido fixo no antigo amigo, e sua voz, fria como gelo, cortou o ar. — Manuel, você sabe o que está fazendo? Se não está bem, vá ao hospital. Manuel se levantou lentamente. — Eu estou muito bem! Sempre estive muito bem. E você, Bruno? Está tão certo de si? Se estivesse mesmo claro de tudo, saberia que a Helena não te ama mais. Você pode segurá-la por um ano, dois, mas não por uma vida inteira. Bruno riu friamente. — Ela ainda é minha esposa. Manuel permaneceu em silêncio após eles saírem. Ao lado, Alice puxou a manga de sua camisa, com cautela, e perguntou: — Irmão, você gosta da Helena? Manuel respondeu com um leve som de

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 26

    No canto ao lado, Bruno se inclinou e apagou o restante do cigarro. Seu perfil era perfeito, os dedos longos e elegantes. Mesmo o simples movimento parecia ter uma graça natural. Ele se levantou e, com seu corpo alto e esguio, caminhou até Helena, colocando suavemente a mão sobre seu ombro. — Helena, vamos embora. O ambiente no reservado ficou em um silêncio profundo. Ninguém imaginava que Bruno fosse tão mesquinho, não era ele quem dizia não se importar com Helena? Além disso, Manuel tinha sempre um bom senso de limites. Ele só trocou algumas palavras brincando, não estava realmente cutucando o coração de Bruno. Por que essa reação tão forte? Naquele tempo, ele jamais foi tão protetor. Casou e tudo mudou! Todos acreditavam que, com Bruno se mostrando tão submisso, Helena certamente iria seguir seu conselho, voltando para casa como uma esposa dedicada, deixando de lado os boatos sobre Bruno lá fora e agindo com inteligência ao não dar importância a eles. Surpreendente

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 25

    — A esposa do Bruno, escondida dele, está celebrando o aniversário de outro homem. — O Bruno sabe. — Mas o Bruno não ama a Helena, então não há certeza de que isso causará um grande alvoroço.Os amigos apenas murmuravam discretamenteBruno estava recostado no sofá do canto, se vestindo inteiramente de preto, se fundindo com as sombras ao seu redor. Mesmo em um ambiente tão sombrio, ele exalava uma aura de nobreza inabalável, como se fosse imune ao toque do mundo, frio e ao mesmo tempo imponente. Seus olhos estavam fixos, profundos, observando Helena que acabava de entrar pela porta. Era evidente que Helena havia se preparado especialmente para essa ocasião. Ela usava um vestido azul de seda, que acentuava sua cintura esbelta. Ao redor do pescoço tinha uma longa corrente de madrepérola branca, enquanto seus lóbulos estavam adornados com delicados brincos de diamantes. O conjunto era complementado por uma bolsa e um relógio da mesma cor. Ela parecia sofisticada, mas também

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 24

    Uma semana depois, Helena alugou aquele estabelecimento.Por causa da excelente localização e do preço vantajoso, Helena assinou um contrato de locação com prazo de cinco anos, escrevendo um conjunto de cheques para entregar ao proprietário.O mercado de locações estava em baixa, então, o proprietário ficou muito satisfeito com o contrato de cinco anos que Helena assinou.O homem se retirou, e Helena, sentada, terminou de beber o restante de seu café, um hábito que cultivava há anos.De repente, uma voz doce soou em seus ouvidos:— Helena.Helena se surpreendeu um instante.Era Alice Rocha, irmã de Manuel.Alice ainda estava na faculdade e, normalmente, não tinha tanta familiaridade com Helena. Porém, naquele dia, estava especialmente calorosa. Correu até ela, abraçou seu braço e começou a conversar de forma afetuosa, quase grudenta demais.Ela era animada e doce, e até Helena, que tinha uma personalidade mais fria, sentia uma certa simpatia por ela. Helena chamou o garçom e pediu para

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 23

    Helena voltou para casa depois de sair do hospital, e Bruno a seguiu de perto.Quando ela estacionou o carro, viu Bruno parado do lado de fora. O carro dele já estava estacionado debaixo da árvore.Assim que Helena saiu do carro, Bruno bloqueou o caminho dela.— Precisamos conversar.Helena tentou contornar o corpo dele e seguiu em direção ao elevador.— Bruno, não temos nada a conversar. Nos vemos no tribunal.Ela subiu, e ele foi atrás...Helena não deixou que ele entrasse.Depois de fechar a porta, Helena ficou com as costas apoiadas na madeira. Bruno foi a sua juventude inteira, deixá-lo para trás doía muito... Realmente muito...Ela levou um tempo para se recompor e, então, foi pegar um pijama, tomar um banho e descansar. Quanto a saber se Bruno iria embora ou não, ela já não se importava mais.A noite foi se aprofundando.As luzes das janelas, uma a uma, se apagavam.Dentro do carro preto, estacionado no andar inferior, uma luz fraca ainda iluminava o ambiente. Um homem vestido d

  • Depois que Fui Embora, o Canalha Ficou Louco   Capítulo 22

    Helena não queria enfrentá-lo e, como desculpa, foi até o banheiro.Encostada na parede, ela ficou em silêncio, perdida em seus próprios pensamentos, esperando que Bruno tivesse a sensatez de ir embora.Cerca de dez minutos depois, a porta do banheiro se abriu, e uma luz branca e suave se infiltrou pela fresta da porta, seguida pela entrada de Bruno.No espaço sombrio, estavam apenas os dois.Helena não o olhou, se recusando a estabelecer qualquer comunicação.Bruno se aproximou dela, sua silhueta alta a envolveu, e ele estendeu a mão, tocando levemente seu rosto. Sua voz, rouca e suave, soou como um sussurro:— Ainda dói?Helena virou bruscamente o rosto para o lado.Ela detestava o toque dele, deixando isso claro de maneira incontestável.Mas Bruno nunca foi um homem que desistia facilmente. Seu corpo se posicionou entre ela e a parede, enquanto uma de suas mãos segurava suavemente seu queixo, acariciando seu rosto com um gesto de grande afeto, mas, para Helena, aquilo tudo não passa

Scan code to read on App
DMCA.com Protection Status